domingo, 7 de maio de 2017

Brito Capelo!

Brito Capelo foi um brilhante Oficial da Marinha de Guerra Portuguesa, também engenheiro hidrográfico e meteorologista, que deu o seu nome à mais conhecida rua da cidade de Matosinhos.

Quem como nós conheceu a Rua Brito Capelo, nos anos 70 e 80, não pode deixar de sentir revoltado com o seu atual estado de abandono e degradação. Era uma rua fervilhante do ponto de vista comercial, não deixando também de ser habitacionalmente relevante.

João Fonseca | Perito Avaliador de Imóveis | 919375417

Muitos cidadãos de Matosinhos associam este declínio ao surgimento da linha de Metro, o que do nosso ponto de vista é errado. As razões são mais profundas e estão intimamente relacionadas com as políticas públicas praticadas pelos sucessivos poderes autárquicos.

Aliás, já tivemos a oportunidade, em dois artigos anteriores, de criticar algumas políticas praticadas pela autarquia:


(ou como os supermercados de conveniência secam tudo à volta!)
Quem conhece a cidade do Porto conhece, de certeza absoluta, o cruzamento do Monte dos Burgos.

É um cruzamento curioso porque agregava três freguesias (antes da recente reorganização), agora duas, e de concelhos diferentes.

Além de ser um local com um tráfego muito intenso é também uma zona habitacional interessante, com um misto de habitação unifamiliar e de construção em altura.

Por isso, a zona do cruzamento do Monte dos Burgos é muito favorável ao comércio tradicional de proximidade onde coexistem, por exemplo, um talho, um “pão quente”, uma loja de eletrodomésticos, uma frutaria, uma farmácia e um “take away”. Isto em 45 metros de rua!

Só que os eucaliptos chegaram!

Num ápice apareceram três supermercados chamados de conveniência, que convenientemente têm, cada um, cerca de oitocentos metros quadrados de superfície comercial.

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A antiga fábrica da Gist-Brocades, em Matosinhos, ocupava uma área aproximada de três hectares, numa zona industrial constituída, desde os inícios do século XX, na zona sul da cidade.

Cessou a sua atividade no ano de 2001, fruto da pressão exercida para recuperar e reconverter a zona e também de eliminar o forte  impacto ambiental negativo, que se refletia na forte contaminação dos solos e águas subterrâneas por nafta e formaldeído, entre outros produtos.

A transformação deste espaço deu origem ao empreendimento designado Palácio da Enseada.
Este pequeno “case study” poderia encerrar múltiplas abordagens mas por hoje centramo-nos apenas em duas:
 - O uso inicial para a zona em estudos era de serviços, tendo sido alterado, em sede de Plano de Pormenor, para residencial.
- A subversão do Plano Diretor Municipal, através do Plano de Pormenor:


Estes artigos têm alguma coisa a ver com a Brito Capelo, também? Claro que sim!

O primeiro, porque tem sido política das sucessivas administrações autárquicas matarem o comércio local. Matosinhos será, provavelmente, um dos concelhos com mais médias/grandes superfícies por metro quadrado.

O segundo, porque Matosinhos-Sul, pensada pelos mais proeminentes arquitetos portugueses (apesar de que em maior parte dos empreendimentos as saídas das garagens fazem-se por passadeiras de peões!), privilegiou a habitação da classe média alta em vez de um “mix” equilibrado de habitação e serviços.

Quem habita em Matosinhos-Sul sai de casa de manhã, chega à noite e faz as suas compras num qualquer hipermercado dos que pululam pelo concelho ou concelho limítrofe.  

A estes motivos juntam-se a transferência de todos os serviços públicos para outra zona da cidade. Foi a Câmara Municipal, foram os antigos CTT, as Finanças, …. Afinal, que “âncora” existe na Rua Brito Capelo, que “obrigue” as pessoas a lá irem? Agora, até as instituições bancárias estão a abandonar a zona!

Com a criação das Áreas de Reabilitação Urbana abrem-se novas janelas de oportunidade para o local.

O nosso receio é que se tentem copiar modelos de concelhos vizinhos e colá-los no local.

A história da Rua Brito Capelo merece ser vivida e sentida.

Devem ser criadas condições para que as pessoas a habitem.

Devem ser criadas estruturas “âncora” que obriguem as pessoas a frequentá-la.


Não façam da Rua Brito Capelo uma discoteca!
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